Soberania Digital Brasileira
- Bernardo Ariston

- 2 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2025
O Brasil está diante de um divisor de águas. Sem tecnologia própria, não há independência, não há segurança e não há futuro, portanto, é hora de assumir o controle do nosso destino digital. Soberania digital, inovação e autonomia são essenciais para o futuro econômico e político do país.

Por Bernardo Ariston
O mundo mudou mais rápido do que percebemos. Em poucos anos, tudo aquilo que organizava as relações internacionais, território, petróleo, exército, comércio, etc, perdeu espaço para um novo tipo de poder, silencioso e decisivo, o poder digital. Hoje, quem controla dados, redes, plataformas, chips, inteligência artificial e sistemas de comunicação controla, de alguma forma, a vida econômica e política de países inteiros. É nesse cenário que o Brasil se encontra diante de uma encruzilhada histórica. Não se trata de retórica futurista; trata-se de compreender o século XXI.
O Brasil sempre foi descrito como um gigante adormecido, mas, na era digital, esse gigantismo perde sentido se estiver apoiado em tecnologia importada, vulnerável e dependente. É como erguer um prédio de quarenta andares sobre fundações de areia. A economia brasileira, embora pujante em vários setores, do agronegócio à energia, passando pela mineração e pela criatividade cultural, ainda se apoia quase integralmente em sistemas, plataformas e infraestruturas que não são nossas. O governo, as empresas, os bancos, os cidadãos: todos dependem de tecnologias produzidas lá fora. Isso significa que decisões estratégicas que afetam nosso dia a dia, nossa segurança e até a nossa democracia passam, em algum momento, por mãos estrangeiras.
Essa dependência digital não é apenas econômica, é política, é social, é profunda. Quando plataformas estrangeiras controlam fluxos de informação, influenciam debates públicos e determinam quais conteúdos são impulsionados ou silenciados, estamos falando de um poder de comunicação sem paralelo, capaz de moldar percepções, afetar eleições, influenciar mercados e definir prioridades nacionais. Sem soberania digital, não existe soberania plena, não existe independência de fato.
O debate ganhou força recentemente com o avanço da inteligência artificial. Enquanto as grandes potências investem bilhões para criar modelos, bancos de dados, infraestrutura e algoritmos próprios, nós continuamos a usar ferramentas feitas por outros países, segundo interesses que não são necessariamente os nossos. Estados Unidos, China e Europa disputam uma corrida tecnológica com impacto direto sobre economia, defesa, agricultura, saúde e educação. O Brasil, embora mostre sinais de despertar, ainda está nos primeiros passos dessa jornada. Assim, a pergunta que se impõe é simples: queremos ser protagonistas ou apenas consumidores?
Apesar das limitações, existe uma oportunidade real de mudança. O país dispõe de vantagens raras, território continental, energia limpa e abundante, biodiversidade incomparável, agricultura altamente tecnológica, população jovem e conectada, capacidade diplomática reconhecida e potencial para desenvolver tecnologias aplicadas ao meio ambiente, ao clima, à segurança alimentar e à produção energética. Somos, em muitos aspectos, um laboratório natural para as necessidades do futuro, mas, para transformar esse potencial em liderança, o Brasil precisa tomar decisões estratégicas, decisões que rompam com a passividade histórica que nos acompanhou desde a industrialização tardia do século XX.
A reconstrução da soberania digital brasileira passa por três pilares essenciais. O primeiro é a produção nacional de tecnologia. Não basta comprar sistemas; é preciso criar. Isso envolve semicondutores, software, IA, defesa cibernética e infraestrutura própria para armazenamento e processamento de dados. O segundo é a proteção dos dados dos brasileiros, tratados como patrimônio estratégico. Dados são o “petróleo do século XXI”, mas, ao contrário do petróleo, circulam com velocidade absoluta. Quem controla dados controla mercados, comportamentos e decisões. O terceiro pilar é a formação de capital humano. Sem educação tecnológica, não haverá empresas, nem inovação, nem competitividade. O Brasil não pode assistir ao avanço do mundo enquanto forma gerações inteiras que dominam redes sociais, mas desconhecem programação, lógica algorítmica e inteligência artificial.
O mais importante, porém, é que o país compreenda que soberania digital não é um luxo intelectual, nem um capricho de especialistas, é uma condição mínima para garantir empregos, renda, segurança pública, competitividade industrial e estabilidade democrática nas próximas décadas. Se o Brasil não assumir o comando da sua tecnologia, viverá eternamente em posição de dependência, pagando caro por sistemas que não controla e se submetendo a interesses que não pode influenciar.
O Brasil tem, sim, a chance de virar protagonista, mas protagonismo não nasce de discursos, e sim de projeto. Se quisermos realmente ocupar nosso espaço na geopolítica mundial, precisaremos, também, transformar a tecnologia em prioridade nacional, com planejamento, investimento e visão, caso contrário, mesmo nos fortalecendo em vários segmentos, permaneceremos frágeis exatamente onde o mundo mais avança.
O futuro já começou e a pergunta que fica é: vamos participar ou apenas assistir?








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