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O Mundo Redesenhado à Força

  • Foto do escritor: Bernardo Ariston
    Bernardo Ariston
  • há 26 minutos
  • 3 min de leitura

A geopolítica entrou em modo de disputa aberta. Com Trump falando em petróleo na Venezuela, tensão crescente no Irã e o Ártico virando fronteira estratégica, o planeta deixa para trás o verniz diplomático e volta a operar por força, pressão e interesse econômico.




O mundo não está apenas atravessando um período de tensão, ele está mudando de lógica. Quando a lógica muda, aquilo que antes parecia impensável passa a ser tratado como normal. O que antes exigia verniz diplomático começa a ser dito sem cerimônia. A geopolítica internacional entrou numa fase mais dura, em que energia, comércio e poder voltam a ser usados como instrumentos diretos de disputa.


A Venezuela se tornou o exemplo mais evidente dessa virada e não por interpretação sofisticada, mas por um motivo direto, Donald Trump fez questão de colocar o petróleo no centro das justificativas. Quando o próprio discurso oficial aponta o recurso estratégico como motor da ação, a mensagem deixa de ser moral e passa a ser objetiva, ou seja, trata-se de controle, reposicionamento e demonstração de força. Em outras palavras, a lógica do espólio volta a rondar a política internacional, não como exceção, mas como método.


O petróleo não é apenas energia, ele é inflação, custo de transporte, equilíbrio fiscal, estabilidade social e, no fim da linha, sobrevivência política. Controlar petróleo é controlar um nervo do mundo e é por isso que a Venezuela não entra no debate apenas como um caso latino-americano, ela funciona como sinal global. Se interesses energéticos começam a justificar movimentos extremos, o sistema internacional perde o seu freio mais importante, a previsibilidade.


Esse cenário não surge do nada, ele acompanha uma transformação estrutural, o mundo caminha para uma disputa mais aberta entre potências e blocos. Durante décadas, os Estados Unidos sustentaram a liderança global com poder militar, peso econômico e domínio financeiro, mas esse modelo passou a ser pressionado à medida que China e Rússia ampliaram seu espaço. A China deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” e passou a operar como polo de tecnologia, comércio e infraestrutura, criando dependências de longo prazo. A Rússia, por sua vez, se fortalece quando o planeta fica caro, instável e fraturado, porque energia e dissuasão militar voltam a ter peso decisivo.


É nesse pano de fundo que o Oriente Médio volta a se tornar um ponto nervoso. A escalada em torno do Irã não é só uma crise regional: é um risco global, porque mexe com rotas energéticas e com a sensibilidade do mercado. Hoje, muitas vezes, a guerra começa sem tanques, sem invasão formal, sem declaração: começa com preço, com medo, com seguro marítimo subindo, com frete encarecendo e com inflação entrando pela porta da frente na vida das pessoas.


Ao mesmo tempo, temas que pareciam distantes ganham um novo sentido. A Groenlândia, tratada por muitos como exagero, entra no mapa como símbolo de uma disputa por futuro. O Ártico deixou de ser periferia e passou a ser fronteira estratégica, com rotas, posicionamento militar e recursos minerais. O que parecia absurdo numa frase vira racional quando se olha o cálculo frio, quem controla certos espaços hoje ganha vantagem amanhã.


Nesse ambiente, comércio deixa de ser apenas economia e vira estratégia. Por isso o BRICS ganha relevância, pois ele expressa a tentativa de reduzir dependências e ampliar alternativas num mundo em que moeda, crédito e sanções também viraram instrumentos de pressão. É na mesma lógica que o acordo Mercosul–União Europeia precisa ser entendido sem ingenuidade. Ele não é só exportação e cifras; é reposicionamento em meio ao terremoto global. Pode ser oportunidade, mas também pode reforçar um padrão antigo, caso o Mercosul permaneça apenas como exportador de matéria-prima e importador de alto valor agregado.


A conclusão é incômoda, mas necessária, o mundo não enlouqueceu, ele ficou mais disputado. Quando o planeta entra nesse modo, petróleo, comércio, tecnologia e território voltam a ser tratados como instrumentos de poder bruto. O desafio do Brasil não é escolher torcida é construir estratégia, porque o impacto dessas disputas chega aqui no que realmente importa, dólar, juros, combustível, custo de vida e estabilidade. Quando o mundo é redesenhado à força, quem não se posiciona com inteligência vira apenas cenário do jogo dos outros e paga a conta primeiro.


Bernardo Ariston



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há 6 minutos

O Irã não é o Iraque nem a Venezuela. Se trump enlouquecer um pouco mais e resolver atacar o Irã, que Israel se cuide.

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