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Rio em guerra, cidade sitiada.

  • Foto do escritor: Bernardo Ariston
    Bernardo Ariston
  • 29 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

A megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, inicialmentre, com 64 mortos e 81 presos, expõe a bravura das forças de segurança e a falência de uma política de segurança baseada em espetáculo e conflito.



Por Bernardo Ariston


O Rio de Janeiro amanheceu em estado de guerra no dia 28 de outubro de 2025. Uma megaoperação com cerca de 2.500 agentes das polícias Civil e Militar tomou os complexos da Penha e do Alemão com um objetivo direto: frear a expansão do Comando Vermelho, facção criminosa que, há décadas, se alimenta da ausência do Estado e expande raízes por diversos territórios do país. O saldo foi o mais pesado já registrado em uma ação policial no estado: inicialmente 64 mortos, 81 presos, dezenas de fuzis e equipamentos de guerra apreendidos. A cidade parou. Escolas suspenderam aulas, vias foram bloqueadas, ônibus incendiados e o medo voltou a ocupar todas as brechas da vida comum.


É preciso reconhecer que houve bravura, pois as forças de segurança enfrentaram barricadas em chamas, atiradores posicionados em altura, emboscadas e, pela primeira vez em escala urbana tão explícita, o uso de drones lançando artefatos explosivos contra o Estado. A operação não foi uma simples incursão, foi um choque contra uma organização criminosa que opera como exército irregular, com logística interestadual, poderio bélico e estrutura de comando consolidada. Houve coragem, técnica e disciplina dos policiais que, diariamente, arriscam a vida para que o crime não se torne poder absoluto. Entretanto, se a coragem policial merece aplauso, a política de segurança pública do governo Cláudio Castro merece crítica dura, direta e necessária, pois não basta entrar no morro com blindados e helicópteros se o Estado sai dele logo em seguida. Não adianta vencer o confronto de hoje se o território retornar, amanhã, a quem domina o cotidiano do morador. A segurança no Rio virou espetáculo e espetáculo com corpos não é política pública, é oportunismo.


A narrativa oficial tenta transformar o combate ao crime em bandeira eleitoral. O governador bradou que o Rio está “sozinho nessa guerra”, acusou o governo federal de abandono, insinuou que a União virou as costas para o drama fluminense. Porém, quando se exige clareza institucional, descobre-se que não houve sequer pedido formal documentado de apoio federal para esta operação. O discurso, mais uma vez, gritou mais alto que o protocolo. Isso não é falta de comunicação, é construção intencional de narrativa.


O Estado se move pela luz das câmeras, o governo comemora apreensões como se números fossem sinônimo de paz, contudo,  por trás de mortos e presos existe uma cidade que sangra e um povo que chora. Quem vive na favela sabe que, quando o fogo cessa, os mesmos criminosos voltam a circular, o medo continua respirando nas travessas e vielas, e as crianças seguem assistindo à violência como único futuro visível. Na lógica oficial, mortos viram indicadores, tiroteios viram mérito e a vida de quem está no meio vira estatística descartável.


A questão central  está na incapacidade de governantes entenderem definitivamente que segurança pública se faz cientificamente com planejamento, condições reais e estratégia bem como, com escola, emprego, iluminação, presença constante do Estado e oportunidades reais. O Comando Vermelho não se fortaleceu em um vácuo: ele se alimentou da ausência do poder público, do desemprego, da segregação urbana, da falta de pertencimento e da falência de políticas de prevenção. Onde o Estado não entra com serviços, o crime entra com soluções, ainda que perversas.


A facção montou no Rio um hub nacional, distribui drogas, recebe armas, abriga foragidos de todo o Brasil, lucra com o que o Estado não controla e organiza territórios sob vigilância armada. Enfrentar isso apenas com confrontos militares é como atacar a copa da árvore sem mexer no tronco e nas raízes. Tira-se um soldado, outro é recrutado. Mata-se um gerente, outro assume o posto. Derruba-se uma barricada, duas surgem na manhã seguinte.


Se o Rio quiser realmente virar a página, precisa de estratégia, não de espetáculo. O caminho passa, primeiro, por inteligência e precisão: operações cirúrgicas, rastreamento financeiro da facção, quebra de redes logísticas, combate à lavagem de dinheiro e desarticulação dos verdadeiros chefes, não só dos soldados de fuzil. Passa também pela ocupação social permanente: escola funcionando, comércio seguro, ambulância acessando a favela, wi-fi público onde o Estado quer que a vida prospere. E passa, sobretudo, pela cooperação institucional: União, Estado e municípios precisam atuar como aliados reais, e não como rivais em disputa eleitoral.


Segurança se mede por vidas preservadas, por crianças que não entram no crime, por famílias que deixam de fugir do tiroteio, por territórios que deixam de ser governados pelo medo. Se o governo insiste em medir sucesso por quantidade de mortos, está assumindo que a vida, especialmente a vida da favela, vale menos.


A operação de 28 de outubro mostrou um Estado capaz de agir com força, mostrou uma polícia capaz de enfrentar o caos, mas expôs, ao mesmo tempo, um governo incapaz de oferecer respostas para além do combate imediato. Uma vitória no campo da guerra, mas uma derrota no campo da paz.


O Rio precisa de coragem  sim, mas também precisa de inteligência, de método, de humanidade e de governo. Enquanto a política insistir no roteiro do tiro e da manchete, o ciclo continuará: operação, morte, medo, recuo, retomada do crime. E assim, a cada repetição do enredo, o Rio perde um pouco mais de futuro, sobretudo, porque não há como vencer a guerra quando se governa como se ela nunca fosse acabar.


Em tempo: atualização as 1032h já são 121 mortos. Presos 113.

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Luiz Henrique
29 de out. de 2025
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Despreparo técnico!

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